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EM UM DIA COMO ESSE QUEM É (FOI) MAIS COVARDE?

O dia estava cinza. A areia da praia parecia uma película antiga. Uma película antiga e mal cuidada de um filme antigo. Antigo, porém lindo. Um filme de Audrey Hepburn. Um filme de Bette Davis. Um filme de Hayworth. Enfim, um caleidoscópio estrelado por alguma musa hollywoodiana dos anos trinta, quarenta, cinqüenta, no máximo. Foda-se – ela pensou.

O dia estava cinza e a areia, fria. Por um instante, ela percebeu que chumbo seria uma boa cor para preencher o seu coração. Chumbo. Cor forte, porém sem vida. Cor marcante, porém sem cor. Cor cinza, porém chumbo. Pesada. Perfeita para rimar com a palavra amor, em um verso cafona de alguma canção cafona, de péssimo gosto.

O mar estava bravo. A garoa, fina e fria. As gotículas que despencavam do céu pareciam açoitar o seu corpo da cabeça aos pés. Dos seus cabelos levemente vermelhos até as unhas indiscretamente pintadas de preto. Cor da noite. Parente próxima do chumbo.

Ela observava o céu chumbo e o mar bravo. Estava bem pouco se fodendo pela inevitável futura gripe a vir ser causada por aquela maldita garoa fria.

Bem pouco se fodendo.

Ela odiava aquele menino.

Em um dia como esse, ele apenas foi embora daqui. Em um dia como esse, ele apenas decidiu ir embora, sem dizer adeus. Em um dia como esse, ele fugiu. Em um dia como esse, ele apenas a deixou ali. Chorando e chorando e chorando. Apenas pensando como é vulgar ainda acreditar em heróis – como dizia a velha canção.

Em um dia como esse quem é o mais covarde: quem foge, quem chora ou quem não luta por amor?


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