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LUAS VERMELHAS

O quarto estava escuro. Escuro demais. Havia apenas um resto de vela, mas que, de tão pequeno, sequer era capaz de produzir uma centelha de luz decente. O quarto estava escuro. Tanto melhor – ela pensou – Assim, não preciso ver esse rosto triste, borrado, sujo, marcado. Assim não preciso ver minhas próprias lágrimas e minha própria incerteza, cruelmente estampada no meu rosto. Ela estava triste. Triste como nunca havia estado antes. Triste como ninguém jamais poderia imaginar. Triste como o mar sereno. Triste como um palhaço sem graça. O quarto estava escuro. Pelas paredes, as baratas fugiam do cheiro insuportável daquele incenso vagabundo. Tanto melhor – ela pensou – Assim, não preciso ver a que ponto cheguei, de que altura despenquei. Não preciso pensar no rascunho que me tornei. Não, caralho, não um rascunho, mas a própria fotografia de uma pessoa triste, sem vida. Uma pessoa só, sem objetivos, sem vontade, sem esperança, sem porra nenhuma. Uma pessoa com dor. Apenas com muita dor e pouca vontade de suportá-la. E ela chorava ainda mais quando pensava sobre isso. Poucas pessoas suportam a tristeza. Quase nenhuma suporta a dos outros.

A não ser em dias especiais. Em dias de eclipse. Em dias de luas vermelhas...de sangue, lágrimas, dor e fotos rasgadas...

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