Pular para o conteúdo principal
FELIZ DE QUEM VÊ ALÉM DOS NEGATIVOS

- Gostei. Gostei mesmo. Você parece pura paz. Serena e bonita - disse ele, enquanto olhava, carinhoso, para a foto colorida dela exposta à sua frente.
- Sério mesmo? - ela perguntou, inquieta - Hmmmm, não sei se quis transmitir exatamente isto na foto. Não sei mesmo. Não me sinto assim. Não sinto toda essa paz e serenidade que você fala. Porra, pensando bem, longe disso. Muito longe disso. Minha alma tá total em outra.
Ele sorriu e disse - Ah, pára. Você não vê porque não quer ver - emendou - Você está bem melhor. Longe dele, perto de você. Feliz - ele disse.
Ela continuou observando o retrato e ficou em dúvida, querendo, de verdade, acreditar que o tempo passou e agora estava feliz. Livre. Em outra.
- Basta perceber uma coisa - ele disse, procurando uma forma de convencê-la.
- O quê? - ela perguntou, curiosa.
- Olhe bem. Veja o seu sorriso - ele respondeu, enquanto os seus dedos amarelos apontavam os contornos do corpo dela, suavemente registrado no retrato jogado na mesa do Clube Varsóvia, entre cinzeiros cheios de passado e copos de vodka vazios.
Ela pegou a foto novamente e a observou com cuidado.
Mexeu os olhos com graça e deixou um sorriso infantil escapar entre os lábios.
Olhou para ele como quem olha para algo/alguém muito querido.
Especial.
Olhou para ele como quem olha para algo que admira muito.
Como quem olha coisas boas.
Preferiu sorrir mais indiscreta ao invés de dizer qualquer coisa. Ao invés de, quem sabe, errar.
- Percebeu? - ele perguntou, também sorrindo, enquanto acendia mais um Marlboro mentolado.
Ela balançou a cabeça e resolveu arriscar - Perceber não percebi, mas gostaria de entender o que você quis dizer. O que você quis dizer com este papo do meu sorriso. O invísivel sorriso.
Ele olhou para ela com muito carinho e respondeu, tranqüilo - Não entendi. Como assim "o que você quis dizer com este papo do meu sorriso. O invísivel sorriso?"
Ela olhou para ele surpresa e disparou, rindo - Oras, você olhou para esta foto? Tem certeza?
- Claro.
- Mas eu estou apenas quase nua e com uma claridade insana em volta do meu corpo. Não há rosto. Não há sorriso. Há nuances. Apenas isso - ela disse, com um sorriso sincero, querendo realmente entender.
- Posso parecer bobo, infantil, tolo, sei lá. Mas uma coisa é absolutamente sincera, minha querida. Uma coisa é absolutamente verdadeira. A única certeza que tenho quando observo as suas fotos, é a de que você está sempre sorrindo quando as produz. Sorrindo e sorrindo e sorrindo, mesmo que nossos pobres olhos mortais não possam ver, mesmo que você não queira mostrar. Mesmo que você não queira mostrar. Mesmo assim.
Ela olhou para ele em choque. Meio lágrimas, meio sorrisos.
Ficou em silêncio.
Apenas em silêncio.
- Sabe o que é isso? - ele perguntou enquanto fazia um carinho nos seus cabelos - Apenas uma garota feliz. O retrato de uma garota QUERENDO ser feliz. E eu lhe pergunto: existe algo melhor do que isso?

E o abraço que eles deram no Clube Varsovia, entre copos vazios de vodka, cinzeiros cheios de passado e retratos coloridos espalhados pela mesa, foi um dos sorrisos mais verdadeiros e sinceros que aquele clube já viu.

Feliz de que vê além dos negativos dos retratos...

... feliz mesmo

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SORRISOS DEMONÍACOS, RESERVADOS DE BANHEIROS E O CLUBE VARSÓVIA

- Sorriso demoníaco? – ela perguntou, arqueando a sobrancelha esquerda, típica façanha que somente ela conseguia. - Sim. Um sorriso demoníaco é o que você tem. Detesto e adoro ele – ele respondeu, enquanto virava um copo de vodka. O Clube Varsóvia estava lotado demais. Era daquelas noites de verão abafadas de quinta feira na quais as pessoas amavam estar na rua. - Não entendi – ela disse, fingindo ignorância e desconhecimento sobre o poder que exercia sobre ele. - Bitch – ele brincou. - Ué, não entendi – ela continuou, abrindo distraidamente mais um botão da sua camisa preta brilhante, deixando parte do seu seio à mostra. Ele respirou fundo. Tomou mais um gole de vodka e acendeu um cigarro. Não conseguia desviar o olhar daquela parte adorável do colo dela que parecia gritar para ser tocado. - Sinceramente, não estou entendendo o seu papo. Coisa estranha esta de sorriso demoníaco. Até parece que sou uma daquelas pin-ups antigas, dos anos cinqüenta, uma Bettie Page contemporânea...

NADA OU TUDO

Nada de mais. Nada de menos Nada de nada. Nada de paz. Nada. Nada. Nada de paz. Nada de branco Nada de mais. Nada de menos Nada de nada. Nada de paz. Nada. Apenas isso. Nada... Mas... muito de choro. Muito de lágrimas. Muito de tudo. Muito de nada. Nada. Muito de nada. Nada de mais. Nada de menos. Nada de paz. Nada. Muito de tudo e tudo um sonho. Sonho. Noites felizes. Estrelas brilhando. Noites. Madrugadas insones e felizes. Nada de mais. Tudo de muito. Muito. Ele? Apenas ele. Choroso e com saudades. Ela? Apenas ela. Saudades e muito mais. Mas nada de mais. Nada de mais. Nada de menos Nada de nada. Nada de paz. Nada. Apenas isso. Nada. Nada...

BIA E LECA

- Não acredito. Você está apaixonada, cacete? – Leca perguntou, percebendo o brilho lindo no olhar de Bia. Ela disfarçou e apenas respondeu, lacônica - Deixa de ser boba – Bia disse, tentando disfarçar o indisfarçável – Apaixonada o caralho – emendou – Sou lá mulher de ficar apaixonadinha por alguém? - Pára – dsse Leca, irritada – Te conheço desde os seis anos. Desde os seis anos. Conheço cada detalhe, cada sorriso seu. Vocè está apaixonada mesmo. Caramba! Vai me fazer o grande favor de dizer por quem? – perguntou. - Deixa de ser trouxa Leca, por favor. Não sei da onde você tira estas bobagens, estas besteiras. Parece que não cresceu. Leca a olhou com indignação e raiva – Porra. Estas bobagens e estas besteiras eu tiro de você mesmo. Tiro de você mesmo. Estamos aqui no Clube Varsóvia, que está bombando de gente chata, gente mala, idiota, presunçosa, aliás, uma porrada de pessoas dançando e você aí, distraída demais, com o olhar vago e brilhante, fumando os seus malditos c...

ENCONTROS. DESENCONTROS.

Encontros? Encontros improváveis, encontros inusitados. Apenas... encontros. Encontros? Adoráveis. Mágicos. Surpreendentes. Inesperados. Inusitados. Encontros. Simples assim. Simples assim. Ainda que na porta do Clube Varsóvia e sua música insana gritando lá dentro. - Porra – ela disse, segura, antes de tomar mais um gole da sua cerveja – Faz tempo que não lhe vejo e falo com você. Ele sorriu. Silêncio. - Curioso – ela insistiu - O quê? – ele perguntou, após um trago. - Encontros. Reencontros. Desencontros. Idas. Vindas. Despedidas. Tudo. Tudo o mais. É algo absolutamente divertido. É a vida. A vida na mais pura e simples forma. Sumimos, Voltamos. Reaparecemos. Morremos. Nascemos. A vida é sempre boa, não? Inclusive trocar nomes. Ele sorriu, sabendo sobre o que ela falava. Definitivamente. Definitivamente. - Quer entrar? – ela perguntou com um sorriso. - E se dançássemos na calçada? – ele retrucou. - Mas não vai chover? – ela disse. Com ...