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DANÇANDO SOZINHA


Ela gargalhava como uma doida. Uma perfeita insana dançando na bagunça da quitinete em que morava, no centro velho da cidade. Ela gargalhava e gargalhava e gargalhava. E dançava e dançava e dançava. Uma verdadeira menina entorpecida de som e fúria, paixão e vontade. No som rolava uma canção velha e surrada do The Clash. Velha e surrada, porém imprescindível em momentos como este. De alegria plena. Imprescindível. E ela estava feliz demais. Muito feliz. Queria poder beijar o céu. Sentir o gosto das estrelas. Sentir o bafo das nebulosas. Sentir a alegria em brincar com nuvens. Podia fazer isso, de verdade, graças às doses de Campari que havia tomado e ao estado de felicidade absurdo em que se encontrava. Feliz como há anos não sabia ser. Feliz, de fato, pela primeira vez em toda a sua vida. Feliz. E ela dançava na sala, sozinha e feliz. Sozinha e feliz. Agitava seu echarpe e dançava como se não houvesse amanhã. Como se o futuro não mais fosse existir. Como se devesse viver aquele momento como se fosse único na sua existência. Não dançava como uma bailarina, pois era desajeitada demais. Não dançava como uma bailarina, pois estava descontraída demais. E ela dançou por horas a fio. Bebeu e dançou e foi dormir feliz. Sozinha e feliz, porém com coração transbordando de alegria. Pela primeira vez em muitos e muitos anos...pela primeira vez...


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