11.7.16

ESCREVE?


- Escreve? – ela pediu com os olhos meio úmidos, muito tristes.

- Escreve? – repetiu.

Ele a olhou muito sem graça, todo sem jeito, quase sem nada.
Absolutamente sem nada.
Nada.
Como sempre.
Como sempre ele.
Um nada.

Silêncio total.

Absoluto.

Apenas silêncio.

- Escreve, porra? Preciso gritar – E ela gritou.

Alto.

Silêncio.

Blend.

Vodka.

Bebida artesanal e cheiro de nicotina barata.

Cheiro de nada.
Cheiro de tudo.

E ele olhou para o teto, para o céu, para a puta que o pariu, como se pedisse alguma palavra ou ajuda.

Uma luz.
Algo.

Algo que nunca veio.

Ao menos naquele momento.

Ao menos naquele momento.

- O que você quer? - ele perguntou - O que você quer de mim? - repetiu - Ainda mais? - prosseguiu.

Ela tomou um gole longo e gordo da porra do copo de vodka vagabunda que estava ao seu alcance e disse de forma fria, seca e sem saco - Escreve?

Ele "titubeou" - se é que alguém ainda conhece esta palavra estranha - e nada disse.
Silêncio e palidez.

Olhou para o alto e apenas respondeu – Não. Não. Não escrevo porra nenhuma. Escrevo o que eu quiser, quando quiser, da forma como quiser. E se eu quiser. Ok?

Os olhos já não eram úmidos.

Eram apenas tristes.
Muito.
Azuis, gordos e tristes.

Olhos mudos.

E ela nada disse.

E ele não escreveu.

Apenas chorou.
Ela?

Também apenas chorou...

E nunca mais se viram...

Nunca mais....

Palavras?

Escrevê-las talvez doem demais.

Demais...


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