Pular para o conteúdo principal


A CONTINUAÇÃO DO CONTO ANTERIOR...

Após o silêncio, ele decidiu ir embora. Tão logo ele fechou a porta para sair da sua vida, ela permitiu a primeira lágrima escorrer inteira pelo seu rosto. E ela sufocou o grito, muito mais por ele ainda estar por perto e poder ouvi-lo do que pela ausência de vontade em pronunciá-lo. E ela entrou em desespero e pensou que estava tudo errado na sua vida. Na sua ridícula vida. Que, no fundo, porra, não era nada ridícula, era apenas como a de todos nós. E enquanto chorava, ela sentia como se tivesse tomado um dos maiores golpes da sua vida. Um golpe forte, um soco pesado e violento. Uma porrada daquelas que machucam, que deixam marcas, que causam danos, mágoas. Daquelas que ferem. Que faz sangrar. Ela sentia como seu supercílio estivesse aberto. Como se o sangue jorrasse pela sua tez. Como se o sangue jorrasse e a sua mistura com o rio de lágrimas que ela produzia, criasse uma espécie de tinta psicodélica, uma espécie de tinta triste, uma espécie de tinta escura, vermelho sangue, utilizada para criar quadros sombrios, rejeitados, infelizes. Ela jamais pôde imaginar que a verdade contida nas palavras dele seria capaz de combater o seu amor. Jamais. E ela ficou andando de um lado para outro na sala, chorando e fumando e chorando e fumando e bebendo e andando e pensando e chorando e sem saber para onde ir ou mesmo sem saber o que fazer. Até que a noite morreu, o dia nasceu e ela desistiu. Jogou-se no chão como nocauteada. Como uma lutadora derrotada, sufocada em ferimentos, cuspindo sangue e sujando o chão com o que sobrou dos seus dentes. E ela ficou deitada por horas até o sol bater em sua cara como se fosse uma caixa de primeiros socorros caindo do décimo andar. Mesmo ferida, talvez eu ainda possa lutar – ela pensou, esboçando um sorriso – Caralho, é lógico que eu vou lutar. Pelo resto da minha vida...


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O QUE VEM DEPOIS DO RELÂMPAGO?

OUÇA: alexander biggs || low Assim, de repente, ela lembrou. ... Ela lembrou que choveu muito naquela tarde. Muito mesmo. Mais do que em qualquer outro dia da sua vida que não aquele. Cruel. Ela lembrou que o tempo estava bom até então, mas o céu, caprichoso, optou pela rebelião. O céu, assim de repente, tornou-se cinza. Absurdamente cinza. Cinza chumbo, quase noite. E choveu muito, mas muito mesmo naquela tarde. Como jamais ela pensou que poderia chover naquela época do ano ou em qualquer outra época, na verdade. Maldade. Ela recordou que estava no Parque Central, quieta, apenas pensando nas verdades que havia ouvido horas antes e arquitetando uma fuga mirabolante do viciado e repetitivo labirinto caótico em que a sua vida tinha se transformado. Lembrou-se, também, que não tinha feito tanto sol e nem tampouco estava abafado e, portanto, não havia razão para tantas nuvens no céu capazes de provocar aquela tempestade gigantesca que se formou. Não mesmo. Ironia. Mas, ainda assim, tudo ac
DISCOS DE VINIL NÃO SALVAM VIDAS? - Discos de vinil não salvam vidas - Bia sentenciou, profana e canalha Nanda abriu os olhos em choque - Não? Como não? - Não, porra. Definitivamente, discos de vinil ou fitas cassete ou ipods ou seja lá o diabo, não salvam vidas. Não. - Você enlouqueceu? - disse Nanda. Bia sorriu um sorriso sinistro, triste, inadequado à felicidade. Adequado ao seu momento. - Claro que salvam. Se você não desistir de se matar ao ouvir Marvin Gaye e Tammi Terrell juntos e cantando apaixonadamente, então não sei o que mais pode te ajudar. - Nhá. Isso é para você, ingênua e esperançosa. - Se eu me fodesse, não me afogaria em etanol barato. Me afogaria em lágrimas ao som de um bom soul dos 60s. Estaria salva. - Que patético. - Você precisa de um choque de realidade. Um choque de vida. Você precisa de cores. = Vai começar. Já te disse para parar - pediu Bia. - Parar nada. Você precisa mesmo. De vida, porra. - Pára de encher. Você está me irritando - disse Bia. - Eu precis
PAPEL MOLHADO Boomp3.com - Você vai? - ele perguntou. - Talvez. E você? – ela devolveu, ansiosa. - Não sei. Gosto da Lu e tals, mas ainda não sei. - Vá! – ela pediu – Vou gostar disso. - Devo? – ele perguntou. - Claro. Acho que deve. Mas você decide. - Bem, então ta. Nos falamos. - Ok. Besos – ela respondeu e desligou o telefone. A festa rolava demente no Clube Varsóvia. Pessoas de todo o tipo, cores, tamanhos e desejos comemoravam, bebiam, celebravam. Todos pelo aniversário da Lu. Ela? Ela aguardava ele. Ele? Não chegava. Ela bebia vodka. Ele ainda não chegava. Ela fumava cigarros e maconha. Ele? Claro que não. Ao final da noite, ela estava exausta. Bêbada e cansada. Exausta por esperar demais pessoas erradas. Cansada de errar. Errar tão fodidamente feio. E ela decidiu ir embora do Clube Varsóvia. Lá fora, a chuva estava infernal. Imprudente, entrou no carro toda molhada e ensopou os bancos sujos. Tão de saco cheio, ela sequer percebeu o bilhete pardo dissolvendo-se no seu pár