Pular para o conteúdo principal
ANA, ALICE E A CHUVA

- Vai chover – Alice disse, olhando para o céu cinza e frio.
- Tem razão – respondeu Ana – Está muito cinza hoje.
- É bom. Faz tanto tempo que não chove, não? E a minha avó sempre dizia que a água da chuva é a melhor para limpar os cantos sujos da casa e da vida.
Ana sorriu, confortável com o comentário familiar de Alice, feliz por tê-la por perto, sua melhor amiga de tantos anos, de tantas drogas, de tantas viagens, porradas, amores perdidos, enfim, de tudo o que apenas um melhor amigo pode ser, ver, sentir – Mas pelo menos a chuva pode esperar chegarmos em casa, não? É uma boa caminhada desta praia até lá.
- Ah, Ana, deixa disso, e desde quando você derrete com a chuva? Que se foda. Vai ser até bom. O dilúvio vai ajudar os pecadores e, principalmente, evaporar essa pinga da minha cabeça – gargalhou.
- Vamos, então? – insistiu Ana.
Saltando com rapidez da areia quase gelada, Alice concordou – Vamos, vamos, mas me deixa ir fumando – pediu.
- Você e esta merda dos seus cigarros – reclamou Ana, enquanto abria a bolsa de praia e pegava um Marlboro para a amiga - Você devia parar com isso, sabe? Seria bom. Bem bom.
- Não começa Ana, please. Este papo de novo, não. Não hoje. Quando der eu paro de fumar. Quando der.
- E isso nunca vai acontecer, né? Quer dizer, pelo menos nos próximos vinte ou trinta anos. Mas, relaxa, ainda assim eu gosto de você – amenizou Ana, enquanto abraçava a amiga – E me diz uma coisa – aproveitou – Você vai ligar para ele? – perguntou, com receio.
Alice fez que não entendeu, irônica – Ele quem?
- O Edu.
- Edu? Edu? Edu? – repetiu, tentando parecer engraçada – Não me lembro de nenhum Edu.
- Tá bem, tá bem. Depois, quando você quiser, falamos a respeito. Não precisa ser agora.
- Pode não ser nunca, Ana? – pediu, triste, Alice.

Ana ficou quieta e deu um abraço mais do que carinhoso em Alice.

Pensou que a chuva podia começar a desabar naquele exato momento.

Assim as lágrimas da sua melhor amiga neste mundo, ficariam escondidas...apenas escondidas...


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NUCA

Ela entrava em transe. Transe total. O lábio de Fernanda em sua nuca a deixava completamente feliz. Muito feliz. Muito feliz. Não existiam mais as más notícias. Não. Definitivamente não. Sem contas, protestos, cobranças ou ligações indesejadas. Nada. Nada a perturbar. Existiam apenas os lábios de Fernanda em sua nuca. Lábios deliciosos e densos. Intensos. Sempre pintados de uva. Sempre lindos. E os arrepios. Muitos arrepios. E ela entrava em transe. Transe total. O lábio de Fernanda em sua nuca a deixava completamente feliz. Muito feliz. Muito feliz. Não existiam mais as más notícias. Não. Defitivamente não. Havia um aroma de uva no ar. Um perfume. E palavras sussuradas na dose certa. Na dose certa. E ela entrava em transe. Transe total. O lábio de Fernanda em sua nuca a deixava completamente feliz. Muito feliz. E molhada. E o abraço que vinha depois era como um gatilho para uma boa noite. Toques. Reflexos. Seios.

Primeira Pessoa

leia e ouça: heaven knows I'm miserable now || vitamin string quartet performs The Smiths Eu. Primeira pessoa do singular. Eu. Eu mesmo. Muito prazer. Vivo. Eu. Na primeira pessoa. Vivendo. Escrevendo. Vivo (ainda). Sempre. Eu, na primeira pessoa. Escrevendo. Sempre (ainda bem). E naquela noite eu a encarei com firmeza, vontade, desejo, decisão e amor, muito, mas muito amor. E minha vida mudou. Tudo mudou. Tudo. Nunca esqueci aquele dia. Nunca. Fevereiro. Nunca me esqueci. Olhos grandes, gordos, verdes e lindos, absolutamente lindos. Lindos demais. Eu morri e fui ao céu (o céu existe?) ao ver aquela lindeza. Linda. Linda. Linda demais. Eu a olhei e a pedi em tudo. Em compromisso, em casamento, em namoro, em cumplicidade, em vida, enfim, em tudo, tudo, tudo, mas, ainda EU, eu… ainda precisava (e ainda preciso) me organizar. E ela percebeu isso. Ela percebeu o quanto EU, a primeira pessoa, apenas eu, precisava aprender. Me organizar. Viver. Aprender a viver. Dedicar menos, mas MUITO

Vida? Muito Prazer.

leia e ouça: all I want is You || vitamin string quartet performs U2 Eu erro. Ah, erro. E muito. E na primeira pessoa (que é a forma mais verdadeira de falar e admitir). Eu erro e erro e erro (e me arrependo, mas nada posso fazer) muito mais do que acerto. Mas também acerto (e, às vezes, no alvo). Sem dúvida. Não duvido mais disso. Erros e acertos. Vida. Eu erro e acerto e vivo (mas não me dava conta disso até um sábado à noite). Eu tento. Eu tento. Todos os dias. Eu busco me achar. Me encontrar. Sorrir. Ser feliz. E me achei (quer dizer, estou me achando). Aqui mesmo, dentro de mim e, claro, nela. Nela. Ela… Linda. Generosa. Única. Um farol de olhos esmeralda, as usual . 20 pontos, 20 itens, uma lista. Uma vida. A minha vida. A minha vida que coloquei no papel e não tinha me dado conta de tudo e do tanto que estava fora de lugar vindo do passado e eu sequer, mas sequer pensei nisso antes. Jamais. Não pensei. E diante da lista, me assustei. Me apavorei. Chorei. Mas, não caí. Ah, não. O