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QUATRO MESES PARA OS TRINTA ANOS


Quase 30 anos? – ele perguntou, querendo parecer surpreso.
- Sim, porra, você é surdo? Esta será a minha idade, caralho. Em quatro meses – ela respondeu, irritada.
- Calma, não precisa ficar nervosa. Não é uma crítica. É apenas uma constatação. Eu, realmente, não fazia idéia.
- Vá se foder – ela retrucou, mal humorada.
- Porra Lisa, não estou te sacaneando. Juro. A vida é boa. Você não me ensinou que é uma Good Fight?
Ela respirou fundo e disse, serena - Ok. Sem problemas – ela perdoou, um pouco mais suave.
- Eu apenas demonstrei minha surpresa. Não tinha idéia de que você está quase com trinta. Uma adulta. Já pode entrar em motel. Pode meter como uma louca, desenfreada – disse, sorrindo.
- Você é um babaca nojento – ela afirmou, com um sorriso nos lábios.
Ele adorou. O (quase) sorriso dela era lindo, único, adorável. Ele amava.
- Você me adora, confessa – ele pediu, cínico.
- Canalha escroto – ela disse, curta e grossa e sincera.
- Confessa, vai – ele insistiu.
- Você é um grosso – ela emendou.
- Olha, apesar de quase trinta anos, posso garantir que seu corpinho é muito mais próximo dos vinte, sabia? – disse, gargalhando.
- Se eu não tivesse feito tanta bobagem, quem sabe? A intoxicação etílica e tóxica mata um organismo e olha, ao longo destes trinta anos eu bebi e me intoxiquei, viu? Caralho, bebi muito, muito mesmo – afirmou, sorrindo.
Ele devolveu o sorriso e disse, sereno – Nem tanto assim. Nem tanto. Você está bem. Saudável e otimista. E o mais importante: casada e feliz. Muito bem casada e muito feliz.
Ela desviou o olhar e respondeu, baixo – Será?
Ele a encarou com surpresa e perguntou – O que disse?
- Nada – ela respondeu – Nada. Não disse nada.
- Sabe de uma coisa? – ele prosseguiu.
- Fala.
- Quando eu era mais novo, eu achava que as coisas mais importantes do mundo naquela época jamais deixariam de ser as “coisas mais importantes do mundo” para mim, ao longo de toda a minha vida. E não é que fiquei velho e muita coisa mudou? Muita coisa. Caralho, hoje eu me importo muito menos com minha coleção do Asterix do que com abraços de amigos queridos que não vejo há anos. Não receber um telefonema de alguém que você realmente acha importante não faz tanta falta aos vinte ou aos trinta anos. Mas, caralho, Lisa, quando você tem quarenta, pequenos detalhes te fodem o dia a dia e te deixam mal, muito mal. Hoje sou menos feliz do que aos trinta. E não sei exatamente aonde errei. Quer dizer, sei exatamente aonde errei, mas não me perdôo sobre isso. Errei demais.
Ela sorriu com as palavras dele e lhe deu um abraço carinhoso e feliz. Depois, enquanto acendia seu Marlboro apenas sorriu e disse, franca – Olha, seu otário. Pode contar comigo. Ainda que eu seja esta eterna velha de trinta anos, pode contar comigo. Sempre!



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