Pular para o conteúdo principal

VIOLETA DE OUTONO (A GAROTA DO MÊS DE ABRIL)


Ela era toda outono. Toda outono. Sempre...

- Odeio o verão – ela disse, irritada, suando como louca naquela tarde insana e quente da estação mais quente do ano.
- Como? – ele perguntou, descrente – Você odeia o verão?
- Odeio. Odeio o verão. O sol me mata. Fode os meus olhos, fode a minha pele. Fode tudo. Detesto esta época do ano.
Ele a olhou com surpresa e carinho - Gente, como você é ranzinza – ele disse - Conheço pouca gente que não gosta de verão. Tá, beleza que sua pele parece nórdica, uma deusa sueca, mas daí a não curtir o verão existe um universo de distância. Você nasceu no Brasil, esqueceu ou quer que eu desenhe? -
Pois é, mas você me conhece e eu odeio esta porra de verão. De verdade.
- Você já teve um amor de verão? – ele perguntou, sério.
- O quê? Amor de verão? Você pirou? Coisa mais babaca. Coisa de otário – ela respondeu, fingindo indignação.
- Um amor de verão. Um amor de praia, areia. Estas coisas. Você nunca teve?
- Eu não. Prefiro o outono – ela respondeu – Já tive um amor em abril.
Ele sorriu.
Ela continuou - Não precisa debochar. Já tive um amor em abril. Um grande amor. Mas acho que ele se foi com o inverno.
- Sei – ele respondeu, descrente.
- Qual o problema? – ela perguntou – Não se pode ser feliz em dias cinzas? Não se pode ser feliz em dias cinzas e frios? Precisa sempre existir o sol?
- Claro que se pode ser feliz – ele respondeu – Claro que sim. Mas você não me parece feliz nunca. Nunca. Nem em dias de sol, nem em dias de chuva, nem em dias cinzas, dias de outono, dias de inverno, dias de chuva.
 - O que você quer dizer? – ela perguntou.
- Deixa de ser amarga – ele pediu – Deixa de ser assim. Você sempre reclama de tudo.
- Não é verdade – ela tentou se defender.
- Não?
- O sol me faz mal. Apenas isso.
- O amor te faz mal – ele disse, triste – O amor te faz mal.
- Como? – ela perguntou.
- Nada, esquece. Deixa para lá. Daqui a pouco começa o frio – ele respondeu, triste, lembrando que a conheceu em um dia longo e cinza de outono.
Idiota, eu te amo – pensou, triste...
E ela? Nem se lembrava deste pequeno detalhe.


Ela era toda outono. Toda outono. Sempre...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

...e de todas as coisas mais feias e mais belas do mundo, a única que a fazia sorrir era o mar, pois o reflexo no espelho causava angústia e vontade de chorar... e ele disse "eu não sei fazer poesia, mas que foda". ela concordou com a cabeça e lhe deu um beijo fabuloso, formidável, maravilhoso. ela chorou, sem saber se de felicidade ou tristeza... apenas sem saber...

NÃO SÃO TEMPOS COMO QUAISQUER OUTROS

OUÇA:  spang sisters || king prawn the 1st Ela jogou o livro de lado irritada, ajeitou os cabelos tortos pela cama e levantou-se. Aflita. Ela estava aflita e sem paciência. Nenhuma paciência. Andou de um lado ao outro do quarto procurando algo para pensar, algo para tocar, algo para lembrar, algo para fazer. Não pensou em nada ou, infelizmente, pensou sim tão logo percebeu o baú cor de palha encostado junto a parede. Lembrou das dezenas de fotos e bilhetes e bobagens que estavam ali guardadas. Pensou em abri-lo e considerou que esta seria uma boa ideia. Aproximou-se do baú e percebeu o que estava prestes a fazer. Parou brusca e riu da própria tolice em achar que as velhas lembranças podiam ajudar, ainda que em desespero. Não, nada que lembrasse aquela pessoa poderia ser bom naquele momento - considerou. Culpou o tédio pela burrice. Voltou a si. Sorriu e agradeceu a sei lá quem por ter voltado ao seu juízo normal a tempo. Saiu do quarto. Foi em direção a

Brindando Palavras Repetidas

  leia e ouça: richard hawley || coles corner - Você é repetitivo. Ele a olhou com uma surpresa muda,  - Você é muito repetitivo - ela disse, certeira, sabendo que o havia atingido em seu ponto mais fraco, mais vulnerável, mais dolorido. Não sorriu. Ele a olhou com certa surpresa sabendo que, no fundo, ela estava certa - Como assim? - perguntou, querendo ter certeza. - Repetitivo. Repetitivo. Você usa as palavras de forma inconsequente e repete sempre as mesmas coisas. Faz isso o tempo todo. - Faço? - ele disfarçou. Ela então sorriu levemente - Claro que faz. Mas o que me deixa ainda mais fascinada é esta sua cara de pau. Você sabe que é assim, desse modo, desse jeito e ainda assim continua nesta direção. Ele fingiu indignação, mas por puro orgulho. Ela estava absolutamente certa. Ele tomou um gole do que estava bebendo e ficou quieto, esperando a próxima porrada. - Não? Você não sabe disso? - ela insistiu. - Talvez - admitiu, sem admitir. - Então, por que você não tenta mudar? - Você

Vinte

  leia e ouça: anthony lazaro || someone like you - Ei, hoje não é o último dia da primavera, início do verão? – ele perguntou, enquanto observava o sol morrer pela janela, quieto, belo, brilhante. Precisamos celebrar - concluiu. - Que dia é hoje? – ela perguntou. - Dia 20 – ele respondeu, enquanto deixava a paisagem do pôr do sol para lá e se concentrava em um casal de velhinhos fantásticos que andavam de mãos dadas pela calçada. - Não. Amanhã é o último dia da primavera, então – ela disse, com um sorriso adorável indo em sua direção e com aqueles olhos verdes tão e tão e tão e tão devastadores. Linda. Apenas ela. Ele sorriu e emendou - Eu detesto quando a primavera termina. Eu simplesmente detesto quando as coisas, no geral, terminam. Eu não gosto disso. Não gosto do fim das coisas, não gosto de encerramentos. Não gosto de fins. Eu sempre choro nas cerimônias de encerramento das olimpíadas, copa, essas coisas – disse, com um sorriso. Lindo, por sinal, e prossegui